Programa reuniu convidadas para discutir desigualdade de gênero e a busca por maior reconhecimento na sociedade
Em alusão ao mês da mulher, o programa Papo Literário, da Rádio Santa Cruz, realizou uma edição especial comandada exclusivamente por mulheres. A edição aconteceu na última terça-feira (17), e teve como proposta destacar experiências, reflexões e trajetórias femininas na literatura e na arte em Cruz das Almas.
Estiveram presentes a membra da Academia Cruzalmense de Letras (ACL), Graça Sena, a historiadora Victória Galvão, a cantora e compositora Mariana Brandão e a radialista Maria Aline. Na parte técnica, Valéria Damasceno comandou a mesa de som. Durante o programa, as convidadas compartilharam experiências relacionadas à condição de ser mulher em diferentes espaços.

Ao falar sobre a ACL, Graça expôs como a desigualdade de gênero pode ser observada nesse ambiente. “Quando a academia foi oficialmente fundada, em maio de 2022, foram escolhidas 15 cadeiras, que são os membros fundadores. Ao longo desses três anos, foram ocupadas mais cinco cadeiras. Dessas 20, apenas quatro são apadrinhadas por mulheres; e apenas sete são ocupadas por mulheres”, pontuou.
A historiadora Victória Galvão destacou que a baixa presença feminina não se restringe a um único ambiente. “Percebemos que isso não se limita à literatura, nem às artes visuais, muito pelo contrário; vemos isso em todos os espaços”, afirmou.

Durante o programa, ela também indicou a leitura de “Becos da Memória”, da escritora Conceição Evaristo. Segundo Victória, a obra, publicada anos após ter sido escrita, denuncia as violências sofridas por mulheres, especialmente as periféricas, e se destaca pelo forte senso de memória coletiva e comunidade.
É nesse contexto de denúncias e reflexões sobre desigualdades de gênero que o Março Mulher se torna ainda mais relevante. O período reforça debates sobre igualdade de direitos, reconhecimento e valorização social, além de chamar atenção para os desafios que ainda marcam a vida das mulheres na sociedade.
Leia também: 8 de março: mulheres de Cruz das Almas compartilham histórias de vida e desafios
Da mesma forma, Maria Aline ressaltou que, além das desigualdades de gênero, as mulheres também enfrentam dupla jornada de trabalho, o que torna esse percurso ainda mais desafiador.
“Nós, enquanto produtoras de conteúdo, de arte, de literatura, vivemos a sobrecarga como profissionais, pesquisadoras e mães. Todas essas demandas, muitas vezes, são desiguais em relação às dos homens, que acabam tendo uma carga muito menor”, explicou.

No que diz respeito à visibilidade na arte, a cantora e compositora Mariana Brandão, que também é professora, afirmou que a pouca lembrança de nomes femininos nesse cenário ainda revela como artistas mulheres seguem tendo menos reconhecimento, especialmente no contexto local.
“Essa semana eu estava trabalhando com os alunos justamente sobre o espaço da mulher na história da arte. Eu disse: ‘Cite três mulheres artistas da sua cidade’. E eles só falavam meu nome, porque era a única referência que tinham. Quando pedi que citassem três artistas homens, eles falaram vários. Então é como se não houvesse espaço para propagarmos a nossa arte”, afirmou.
Mariana também destacou que, ao longo da trajetória na música, muitas vezes viu sua imagem associada à figura do pai, em vez de ser reconhecida a partir da própria caminhada artística. “Eu aprendi muito com o meu pai, tenho muito orgulho dele, mas e eu? E a minha trajetória?”, questionou.

Para Graça Sena, a discussão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres deve ser constante e precisa passar por estruturas mais amplas da sociedade. Segundo ela, o enfrentamento das desigualdades de gênero também exige questionar práticas sociais e econômicas que sustentam a misoginia.
“A nossa tarefa exige mais do que derrubar o patriarcado. É preciso também derrubar o capitalismo, aliado e fomentador da misoginia, do racismo, além de outras estruturas que se opõem à construção de uma sociedade mais justa”, destaca.

O Papo Literário vai ao ar todas as terças-feiras, das 20h às 21h, na Rádio Santa Cruz. Para ouvir a edição especial em homenagem ao mês da mulher, acesse este link.
Por Fernanda Amordivino

