Fernanda Amordivino
“Eu acredito que as mulheres têm uma força muito poderosa. Somos como água, quando nos juntamos, crescemos”. A reflexão é da educadora e coordenadora pedagógica do Colégio Estadual Recôncavo II Alberto Torres (CETEP), Roberta Evelyn, sobre o Dia Internacional das Mulheres, comemorado neste domingo, 8 de março.
Roberta, natural do subúrbio ferroviário de Salvador, mora em Cruz das Almas há 20 anos. Formada em pedagogia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), sempre enxergou a educação como um meio de transformação de vidas.
De acordo com ela, ao longo de sua trajetória profissional também enfrentou situações desafiadoras, especialmente quando as pessoas demonstraram dúvidas sobre sua autoridade para falar sobre determinados temas. “O julgamento racial e de gênero é muito forte. Eu já ouvi coisas do tipo: ‘a palestrante não vem?’. Se for um lugar de conhecimento e de saber, esperam que não seja eu aquela que vai falar”, relata.

Desse modo, relatos como o de Roberta ajudam a compreender por que o Dia Internacional da Mulher continua sendo um momento de reflexão sobre desigualdades. A data tem origem nos movimentos feministas e trabalhistas que reivindicavam melhores condições de trabalho e justiça social. Em 1975, o 8 de março foi estabelecido oficialmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) e, desde então, tornou-se um símbolo da busca por direitos femininos.
Outra história que revela desafios enfrentados por muitas mulheres é a de Vera Buri, trabalhadora da indústria fumageira que construiu sua trajetória entre o trabalho e os desafios do dia a dia. “A minha vida foi bastante difícil. Meu pai morreu e minha mãe criou sete filhos sozinha. Hoje eu completo 66 anos, ainda trabalho na Fumex, mas iniciei na Tamaba, com 20 anos”, relata.
Mãe solo de três filhos, Vera conta que grande parte da vida foi dedicada ao trabalho para garantir o sustento da família. Segundo ela, a mãe foi uma das suas principais referências. “Minha mãe sempre dizia que a gente precisava ter dignidade e força de vontade para conquistar as coisas”, relembra.

Em sua visão, ser mulher também traz desafios, principalmente pela presença do machismo em pequenas situações cotidianas. Vera relata que, por ser solteira, muitas vezes enfrenta julgamentos sobre suas ações. “É como se eu não pudesse ter amizade com ninguém. Não posso conversar com um homem que já dizem que estou dando confiança”, afirma.
Isso ocorre porque o machismo, sendo um problema social, faz com que as pessoas acreditem que homens e mulheres não possuem os mesmos direitos, nem devem ter os mesmos comportamentos. O machismo também classifica a mulher como inferior em diferentes aspectos: físicos, intelectuais ou sociais.
Segundo Roberta Evelyn, esse é um dos desafios que as mulheres ainda enfrentam na atualidade, além do risco de não ter o direito básico de viver garantido. “Eu acho que o grande desafio é sobreviver a cada dia. É por isso que nós, enquanto sociedade, ainda temos muito o que avançar, que ler, compreender e evoluir”, pontua.

Apesar dos desafios, Roberta afirma que a persistência é uma das características que mais marcam sua trajetória. “Eu acho que sou uma mulher muito corajosa, apesar de ter medo de não conseguir muita coisa. Eu me orgulho de não desistir e de continuar diante das coisas que enfrento. Acordar de manhã e decidir continuar sendo, apesar de tudo, é muito forte”, reflete.
Assim como Vera, ela também é mãe solo e autora de dois e-books, “MÃE-SOLO: Guerreira Uma Ova”, publicado em 2021, e “PÃE, não! Mãe lidando com ausência paterna”, lançado em 2025, em que compartilha os desafios da maternidade.
“Esse é meu movimento de erguer vozes femininas negras como a minha, de dialogar sobre raça, identidade de gênero, maternidade solo e sobre ser mulher antes de ser mãe”, afirma.

Histórias como as de Roberta e Vera mostram que, embora muitas mulheres ainda enfrentem desafios semelhantes, elas também constroem caminhos marcados por coragem e resistência. Por isso, ao refletir sobre o significado da data, Roberta afirma que o respeito precisa ir além das homenagens do 8 de março.
“Se for para nos presentear hoje, mas nos agredir amanhã, eu prefiro que não. É sobre o respeito todos os dias e para todas as mulheres. Não apenas para a minha mãe, irmã ou namorada. É para todas as mulheres”, destaca.

