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Cruz das Almas parou porque anunciaram que Luiz Gonzaga ia se apresentar lá. Na época, o que a gente via eram os trios de forró locais, a sanfona de Mané Vito, a zabumba gostosa de Evilásio, o triangueiro Tadeu muito do frenético, os outros músicos que durante o ano eram mecânicos, eletricistas, lavradores e pintores de parede, mas que no São João se vestiam de encanto e saíam pelas roças derramando o mel de seus talentos sobre toda a gente.

Dona Mucinha era sanfoneira das boas, e assim havia sido desde nova. Nasceu numa família grande, sem dom pra arte, mas veio a este mundo com um ouvido imenso e uma estrondosa capacidade de música. Um dia, no caminho de casa, encontrou uma sanfona abandonada e puft! estava feita a magia. Passou a correia pelos ombros, lá se foi andando e cruzando os dedos ligeiros pelos teclados que ainda existiam, marcando os baixos, esticando e encolhendo o fole numa melodia que ela acabava de inventar.

Envolveu no seu compasso a estrada rural, inundou de notas a casinha pobre. Menina, quem te deu isso? Achei na rua, Mãe. Mucinha, quem te ensinou? Eu acho que foi Deus, Pai. Cresceu aí nesse amando o instrumento, sua companhia tão presente para onde se estendiam a alma o coração da moça.

Os pais morreram, as irmãs tomaram cada qual o seu rumo, e ela para sempre de mãos dadas com a melodia. As cada vez mais largas rachaduras da casa, um milhão de furos no telhado que quando chovia só livrava mesmo o colchão de palha, as trempes demais de desgastadas sobre o fogão de lenha, e ela para sempre de mãos dadas com a melodia, nunca estivesse só.

A Praça do Lavrador ficou apinhada de gente pra ver Luiz Gonzaga, e dona Mucinha foi uma das primeiras a chegar, tomar lugar na frente da caminhão de Zequinha cuja carroceria serviu de palco ao Rei do Baião, que não tinha visão das melhores, mas que não pôde deixar de perceber a mulher miudinha abraçada à velha sanfona. A senhora toca? Toco, sim, senhor. Apois, toque pra nós. E tome-lhe xaxado e xote e baião e pagode e valsa e chamego, e tome-lhe luzes no coração cansado do povo.

Mas, minha gente, então quer dizer que eu venho me apresentar e sou eu que ganho a apresentação? Dona Mucinha, que é que a senhora deseja deste humilde admirador? Uma sanfona, seu Luiz. E ele rapidamente organizou a vaquinha, um Cruzeiro aqui, outro ali, cada um se investindo no que podia, o povaréu todo contente com as mãos correndo os bolsos, eu mesmo desinteirei o dinheiro da chapa do meu Cordel da Vida pra também agradar dona Mucinha, que ela merece toda nossa admiração.

Os chapéus com o dinheiro foram passando de mão em mão até chegar nela. E naquele 24 de Junho, a gente voltou mais feliz pra casa.

Por Wesley Correia

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