A recusa de parentes à doação de órgãos de entes falecidos aumentou de 58% para 68% na Bahia, após o início da pandemia, segundo informações da Central de Notificação, Capacitação e Distribuição de Órgãos da Bahia (CNCDO). Essa queda na adesão das famílias está refletida nas 68 captações por morte encefálica registradas até agosto deste ano.

Ao longo de 2019, 158 doações desse tipo foram realizadas, enquanto em 2020, o total foi de 129 aprovações familiares.

A redução também ocorreu na doação de córneas, que tanto podem ser captadas em casos de morte encefálica quanto após a parada do coração, pois um tecido, não um órgão, assim como pele e ossos.

Até o final de agosto, 261 córneas haviam sido doadas em todo o estado, enquanto o total de 2019 foi de 796 captações. Em 2020, o total foi de apenas 353 doações.

Sobre as possíveis causas para o aumento na negativa familiar, a coordenadora do CNCDO, da Secretaria da Saúde da Bahia, Carolina Sodré, diz que ainda não é possível cravar uma resposta, mas acredita ter relação com as restrições das visitas. “Muitas vezes, o primeiro contato da equipe com a família era para dar a notícia do óbito, então não conseguia fazer vínculo. E vínculo é muito importante para que a família se sinta segura na hora de tomar essa decisão”, pondera.

Positivo

Jaqueline de Souza Conceição, 33 anos, administradora, faz parte dos 32% que disseram sim, mas pôde doar apenas as córneas do pai, falecido no último dia 18 em decorrência de um câncer. Ela diz que também daria uma resposta positiva para a doação de múltiplos órgãos em caso de morte encefálica, pois considera o ato importante e recorda do pai, ainda com saúde plena, ter comentado que era favorável.

Conforme a Lei 9.434/1997, a morte encefálica precisa ser “constatada e registrada por dois médicos não participantes das equipes de remoção e transplante”. De acordo com o Ministério da Saúde, a morte encefálica consiste na “perda completa e irreversível das funções encefálicas cerebrais”. Após esse momento, o coração pode continuar batendo por algumas horas, mas a parada cardíaca é inevitável, e o indivíduo só conseguirá respirar por meio de aparelhos.

Jaqueline só não tinha certeza sobre a realização da captação de órgãos no Hospital Santo Antônio, das Obras Sociais Irmã Dulce, mas concordou prontamente quando foi abordada pela equipe responsável.

Segundo a CNCDO, as doações podem ser efetivadas em todos os hospitais que tenham UTI. “Minha preocupação era que ficasse alguma coisa visível, para o momento do sepultamento, mas foi muito rápido e não transformou em nada a aparência dele”, conta.

“Sinto falta de informações e campanhas sobre o tema. Durante o tratamento do meu pai, inúmeras vezes ele precisou de doação de sangue, então aquela realidade ficou mais próxima de mim. Da mesma forma que as pessoas que doavam ajudavam ele, eu precisava fazer a minha parte para retribuir. Se não fosse isso, seria um assunto muito distante”, comenta Jaqueline.

Atualmente, 931 pessoas estão na fila por transplante de córnea na Bahia, enquanto 14 esperam por fígado e 1282 aguardam a doação de um rim compatível. Transplantes de coração e pulmão não estão sendo feitos no estado, informa Carolina. Caso o paciente precise será encaminhado via Tratamento Fora do Domicílio, com deslocamento dele e do acompanhante pago pelo Estado, que também fornece uma ajuda de custo para o período de permanência.

Transformação

José Vasconcelos, 70, fazia três sessões de hemodiálise por semana e estava na fila para receber um rim quando fundou a Associação dos Pacientes Renais e Transplantados da Bahia. Há sete anos, ele recebeu o órgão que permitiu a retomada das suas atividades normais, pois antes, após cada sessão, se sentia sem forças.

Um aspecto ressaltado por Vasconcelos é o afastamento social enquanto a pessoa está lidando com a insuficiência renal. O estigma chegava ao ponto de parentes evitarem usar a piscina se ele tivesse mergulhado. Com o transplante, o olhar da família e dos amigos mudou e ele passou a ouvir que estava com saúde melhor do que muitos ao redor.

Vasconcelos recebeu o órgão de doador falecido, mas a doação de rim intervivos também é possível. Nessa modalidade também é permitido doar parte do fígado e parte do pulmão. Embora o mais comum seja a ocorrência entre parentes, ressalta Carolina, pessoas não aparentadas também podem realizá-la. No entanto, antes de ser efetivada, a doação será avaliada pela CNCDO, pelo Ministério Público e pelo comitê de ética do hospital onde o transplante será feito.

Independentemente da relação entre doador e receptor, a pessoa disposta a doar um rim, parte do fígado ou do pulmão terá de passar por uma avaliação médica para verificar a possibilidade de futuro comprometimento da sua qualidade de vida.

A coordenadora da Central destaca que a pessoa precisa ter plenas condições clínicas, psicológicas e sociais. No caso da doação de medula, que só é feita no modo intervivos, os critérios são específicos, assim como o cadastro de doadores e de pacientes à espera.

Atualmente, cerca de 5,5 milhões de doadores estão cadastrados no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea, mas como a compatibilidade entre pessoas não aparentadas é incomum, 850 pessoas aguardam transplante de medula no Brasil.

Fonte: A Tarde / Repost: Bahia Recôncavo

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